A propósito do poema do Manuel Bandeira, enviado pela Sónia, e do 1º de Maio:
É por isso que muitos de nós são presos, torturados e mortos. Para que esse poema do Manuel Bandeira (poeta que muito admiro) passe a fazer parte das coisas do passado. Para que nunca mais possa haver homens-bichos.
Em Portugal, o direito a comemorar o 1º de Maio custou dezenas de mortos, muitos feridos e outros ainda (muitos mais) torturados e encarcerados nas sinistras masmorras do fascismo.
Em 1962 realizou-se, em Lisboa, pela primeira vez sob a opressão salazarista, uma grandiosa manifestação de milhares e milhares de pessoas comemorando o 1º de Maio e protestando contra a repressão e a guerra colonial. A manifestação foi reprimida violentamente, tendo a polícia assassinado o jovem operário Estêvão Giro.
No 1º de Maio de 1963, também em Lisboa, repetiu-se a manifestação, tendo nessa altura sido assassinado o tipógrafo Agostinho Fineza.
Assinalando esse 1º de Maio, publiquei um poema no Suplemento Literário do "Diário de Lisboa", a coberto do pseudónimo Luís Gameiro. Era assim:
A ALMA DAS RUAS
A Primavera pairou, rompeu
mas não espalhou jasmins pela avenidas.
A Primavera instalou-se
no miramar mais alto da cidade cativa,
mas nem os pássaros cantaram
sobre o sorriso carmesim dos telhados distantes.
Apenas o latejar das grandes seivas
põe frémitos de esperança
nas janelas.
A multidão explodiu, às seis horas da tarde,
com uma ideia comum ciosamente guardada.
Mas nem um grito raspa o cinzento das ruas
nem um buzinar mais estridente
pendura um emblema na melancolia.
Dedos tamborilam
nas mesas, nas cadeiras, nos joelhos, nas vidraças, como
um coração batendo, gigante, marcando
o compasso dos passos nos passeios
e quem é aquela sombra que se esconde no canto do tapume
disfarçada de cartaz publicitário?
Núvens deslizam velozes no vento
mas não podem deter a primavera.
Vem, meu amor, não esperes,
que o autocarro jamais chegará.
Desce comigo a rua
a conquistar o Sol.
Mesmo já depois da Revolução do 25 de Abril, em plena democracia, na noite
que antecedeu o 1º de Maio de 1982, a polícia disparou sobre a multidão que, na cidade do Porto, se preparava para comemorar o dia do trabalhador, e matou dois jóvens.
A minha indignação traduziu-se no seguinte poema:
O ABRAÇO
(Ao Porto, na véspera do 1º de Maio de 1982)
Esta noite estremeci
com um telex cravado no coração.
É um pesadelo, soprei.
Depois de Abril
já nada disto pode ser real.
Mas o silêncio, zumbindo escarninho,
apagou as palavras ainda frescas.
Da vala comum do tempo
saltam podridões em fúria,
arremessando o ódio contra a vida.
No Porto em labaredas de sangue
arde o granito na calçada.
Agora sim, não palavras mas gritos,
indignação e fúria, visão de corpos
calcetados de balas
escorrendo flores vermelhas pela rua.
Fugiu-me a vontade direita ao Porto,
desceu a rua escura, correu do Lordelo à Foz,
interrogou o Douro, os velhos armazéns,
e soube que o silêncio não mais funciona
enquanto o sangue se mantiver
indelével nas pedras da memória.
É impossível o regresso ao nevoeiro.
Balas abateram irreversíveis
duas esperanças ainda mal abertas
deixando em meio o gesto generoso.
Mal se ouviu a risada de alegria
foi ceifado o amor ainda em botão.
Ficou-nos a raiva, a raiva a borbulhar,
as mãos abertas em dádiva
e as bocas secas de gritos
emitindo palavras de avançar.
Ó Porto-cidade, Porto-orgulho, Porto-granito,
Porto-Firmeza, Porto-Heroísmo,
Porto-vida-escondida-em-sofrimento,
levanta alto, para além da força,
projecta longe, para lá da neblina,
o crepitar das bandeiras-fogo dos teus filhos
tombados como duas lágrimas
no teu rosto de pedra.
Com eles cairam, de novo assassinados,
todos os mortos do 1º de Maio.
Ei-los aqui sentados a meu lado
preenchendo os degraus da escadaria negra
vivos e presentes.
Vivos e presentes!
no abraço de sangue
com que retomaremos o caminho.